7 de novembro de 2009
MUNDOS SEM VIDA
“Como o Espiritismo explica a existência de um mundo sem vida alguma, como a Lua e provavelmente Marte?”
O senhor, agora, me lembrou de uma falha que cometi, na lição passada, ao expor o problema sobre a escala espírita dos mundos. Realmente, há nessa escala um outro tipo de mundo que eu não citei, porque está incluída na própria fase dos Mundos Primitivos. São os Mundos Transitórios, que, segundo os Espíritos disseram a Kardec, são completamente áridos, muitos deles sem mesmo terem atmosfera, como acontece com a Lua.
Alguns deles, porém, já possuem atmosfera. São aqueles em que a vegetação se desenvolveu, em que houve a possibilidade, em virtude da existência de água nas suas entranhas, do desenvolvimento da própria atmosfera. Esses mundos transitórios, assim considerados, não têm condições de habitabilidade e, justamente por isso, não têm habitantes permanentes. Ninguém pode, por exemplo, viver permanentemente na Lua, a não ser de maneira artificial, servindo-se dos recursos da Terra, porque a Lua não tem atmosfera. Entretanto, nos Mundos Transitórios, os Espíritos se acomodam, por assim dizer, nos seus trabalhos que realizam no Cosmos.
O senhor vai dizer que isto é, por certo, um caso de imaginação, tirado da mitologia ou coisa semelhante. Mas a verdade é que os Espíritos somos nós mesmos. É preciso lembrar dos Espíritos não como fantasmas, não como criaturas abstratas, imaginárias, mas como criaturas humanas, desprovidas do corpo material. Nós não somos animais. Temos um corpo animal como instrumento de nossa manifestação, na vida terrena. Somos provenientes do Reino Animal, na nossa evolução, mas por termos atingido um plano superior, em que se manifesta a consciência, nós superamos a animalidade, porque a nossa essência é espiritual e não material.
Temos, pois, de nos lembrar dos Espíritos como seres humanos, dotados de todas as capacidades que possuímos, aqui na Terra, sendo que as mesmas são criadas em virtude de eles estarem revestidos de um corpo mais leve do que o nosso corpo material, que é o perispírito. O senhor teria a possibilidade de dizer que tudo isso é imaginação. E se eu lembrar ao senhor que as pesquisas existentes neste caso demonstraram a existência real do perispírito, o corpo espiritual do homem? O senhor poderá objetar-me, como costumam fazer os céticos, que essas pesquisas nunca chegaram a comprovações decisivas. Na verdade, chegaram.
Chegaram, sim senhor.
Se o senhor ler os trabalhos científicos a respeito, verá que chegaram a resultados conclusivos, mas foram rejeitados pela maioria dos cientistas, que não se importaram em pesquisar nesse campo. Por que William Crookes se dedicou a estudar os fenômenos espíritas? Por que ele era espírita? Não, porque ele nem acreditava nisso. Depois da investigação da sociedade Dialética de Londres, que quis acabar com o Espiritismo e acabou, na verdade, se dividindo em duas partes, uma a favor e outra contrária, depois desse fracasso William Crookes foi chamado à liça. Era um homem de grande prestígio, de grande capacidade científica no campo da investigação, principalmente para fazer aquilo que a Sociedade Dialética não havia conseguido fazer.
É bem conhecido o episódio de Crookes. Ele trabalhou apenas três meses na investigação espírita, afastando-se, portanto, do campo das suas pesquisas habituais, do seu trabalho costumeiro.
Pois bem, Crookes ficou mais de três anos na pesquisa espírita e provou a existência de todos os fenômenos espíritas. Então, o que fizeram aqueles mesmos que haviam solicitado a sua presença nesse campo? Disseram que ele havia perdido a razão.
Como ter provado a existência dos Espíritos, pelo mesmo Crookes, que havia provado a existência da matéria radiante? As conquistas de Crookes antes do seu trabalho espírita eram válidas, mas as conquistas no campo da investigação espírita não deveriam ser válidas. Veja o senhor o preconceito, a falta de arejamento espiritual para enfrentar os problemas. Ainda recentemente, um grande cientista francês afirmou, através de um trabalho muito bem feito, sobre a tradição dos cientistas no mundo atual, em face dos problemas parapsicológicos, que existe na Ciência uma lei de conservação da estrutura científica, denominada Lei de Alergia ao Futuro, que funcionou na Ciência.
Quanto a Crookes, saiu do campo do presente imediato e investigou a realidade dos fenômenos espíritas, com o que se projetava no futuro. Então os seus próprios colegas se voltaram contra ele. Temos também o caso de Charles Richet, que projetou suas pesquisas em Argel, provocando as manifestações de um Espírito materializado, que ele examinou como fisiologista, em todas as minúcias de sua manifestação; comprovou e afirmou a realidade da materialização e foi acusado, pelos seus próprios colegas, de que tinha cometido um grave erro de ter sido ludibriado por afirmações do cocheiro do general Noel, em cuja casa foram feitas as experiências. Acontece que esse cocheiro havia sido despedido pelo general Noel; era ladrão e bêbado. Então Richet perguntou a seus colegas na França: vocês preferem ficar com as afirmações do cocheiro bêbado ou com as minhas?
Como o senhor vê, o problema é muito sério, muito grave e nós precisamos compreender que temos que deixar de lado os preconceitos e encarar a verdade. Vamos examinar as pesquisas científicas em si e verificar a constância com que essas pesquisas não mudam. Desde os tempos de Kardec até hoje, estão sempre terminando, concluindo, pela existência real do fenômeno. Então a realidade se impõe, através da pesquisa científica, e não pode ser absolutamente negada com essa simplicidade, essa facilidade com que tem sido feita.
J. Herculano Pires – No Limiar do Amanhã
4 de novembro de 2009
O NOVO MANDAMENTO
EM HOMENAGEM AOS 99 ANOS DO NASCIMENTO DE CARLOS PASTORINO
João, 13:33-35
33. "Filhinhos, ainda um pouco estou convosco; procurar-me-eis e assim como disse aos judeus: aonde eu vou, vós não podeis chegar, - também vos digo agora.
34. Novo mandamento vos dou: que ameis uns aos outros; assim como vos amei, que também vós ameis uns aos outros.
35. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros".
O termo teknía, "filhinhos", exprime toda a ternura possível, tendo-se tornado usual em João (cfr. l.ª João, 2:1, 12, 28; 3:7, 18; 4:4; 5:21). O aviso de ter que seguir "só" fora dado aos judeus (cfr. João, 7:34 e 8:21).
O novo mandamento é o amor mais amplo, irrestrito, incondicional, acima das indiferenças, das ingratidões, das ofensas, das calúnias e até do suplício, do abandono, da morte.
Os primeiros cristãos o viveram, segundo lemos nos Atos dos Apóstolos (4:32): "Na comunidade dos fiéis, havia um só coração e uma só alma, e ninguém dizia possuir algo, pois tudo entre eles era comum".
Idêntico testemunho dá Tertuliano (Apologética, 39, 9; Patrol. Lat. vol. 1, col. 534): Sed ejúsmodi vel máxime dilectionis operatio nobis inurit penes quosdam. Vide, inquiunt, ut ínvicem se díligant (ipsi enim ínvicem óderunt) et ut pro altérutro mor i sint parati (ipsi enim ad occidendum altérutrum paratiores erint, ou seja; "Mas a prática desse nosso amor em grau máximo queima a alguns. Vê, dizem, como se amam mutuamente (mas eles mutuamente se odeiam) e como estão prontos a morrer um pelo outro (mas eles estão mais preparados a matar uns aos outros)". E, mais adiante: ítaque quiánimo animáque miscemur, nihil de rei communicatione dubitamus: omnia indiscreta sunt apud nos, praeter uxores, isto é: "Por isso, nós que nos unimos pelo espírito e pela alma, não hesitamos em pôr tudo em comum; todas as coisas são, entre nós, de todos, exceto as esposas".
A interpretação profunda leva-nos ao extremo ilimitado, ao pélago abissal do AMOR TOTAL, sem a menor restrição, mesmo em relação àqueles que nos são ingratos, prejudiciais, perversos e caluniadores.
O amor é a "pedra-de-toque" que dará a conhecer ao mundo os verdadeiros discípulos do Cristo. São os que não agem, não falam, nem pensam com críticas a quem quer que seja. Não pode haver separatismo entre nações, religiões, partidos, centros, igrejas. Quem condena ou persegue criaturas, cristãs ou muçulmanas, católicas ou espíritas, protestantes ou materialistas, não é CRISTÃO: "nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros".
Mas o vício humano torceu tudo. Hoje, se duas criaturas se aborrecem, se uma fala mal de outra, se uma denigre a fama ou faz restrições a outros, todos acham normal e natural. No entanto, se um AMA outro, está armado o escândalo! Se um médium ataca outro, logo se formam os partidos: "eu sou de Paulo, eu sou de Apolo" (l.ª Cor. 1:12). Se um sacerdote ataca violentamente e calunia um espírita, todos os católicos o aplaudem. Mas se qualquer um desses começa a AMAR uma moça, imediatamente, dizem todos: "caiu do pedestal!" Todos compreendem e justificam o ódio, as competições, as críticas, as acusações, até as calúnias. Mas o AMOR, não! Ninguém compreende o AMOR. E no entanto, "nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros".
Trata-se do amor, como o entendeu Paulo. O amor que está acima e que é mais importante e mais valioso, que o dom das línguas humanas e angélicas; acima da mediunidade por mais humilde ou espetacular que seja; acima da gnose dos mistérios iniciáticos, acima ainda da ciência oculta, acima da própria fé mais atuante, que remove montanhas; acima da caridade mais generosa e sacrificial e do próprio marítimo que se deixa queimar em testemunho da fidelidade à crença ...
Figura “AMAI-VOS UNS AOS OUTROS” - Desenho de Bida, gravura de Léopold Fleming
AMAR é ter a alma grande, é ser benigno, é não ser ciumento nem invejoso; quem ama não se gaba, não se vangloria, não se ensoberbece, não se envaidece, não se comporta com inconveniências, não busca seus próprios interesses, por mais legítimos que sejam; quem ama não se irrita nem se magoa, não suspeita mal de ninguém, não se alegra com a dor alheia, mas apenas com a Verdade; suporta tudo, crê em tudo, preferindo ser enganado a enganar, espera com paciência, sofre tudo calado, perdoando e amando ... Esse amor jamais terminará, jamais desaparecerá, pois é maior que a fé e que a esperança! (Cfr. 1.ª Cor. 13:1-8).
No AMOR TOTAL, quando é real, absoluto, inclusivo, em todos os planos, não há exigências, nem distinções, nem limites, nem preconceitos, nem interesses: dá, sem nada pedir; perdoa, sem nada lembrar; sofre sem queixar-se; é pisado sem magoar-se; empresta sem exigir volta; abre a bolsa, os braços e o coração a todos, incluindo todos num só amplexo carinhoso e generoso e alegre e suave e sorridente - pois esse é o sinal efetivo e real do discipulado do Cristo. E é "por seus frutos que os conheceremos" (Mat. 7:16).
Carlos Pastorino
Sabedoria do Evangelho 7
3 de novembro de 2009
PLANEJAMENTO FAMILIAR SOB A ÓTICA ESPÍRITA
“Não te admires de que eu te haja dito ser preciso que nasças de novo.” (João, 3:7.)
A análise do presente tema embasa-se no Evangelho e na Doutrina Espírita, abstendo-se, contudo, de destacar as teses das ciências materialistas, que buscam solucionar esses delicados e intrincados problemas sem o conhecimento das soberanas leis da vida, originadas no princípio divino da reencarnação.
Reencarnar é a oportunidade bendita que temos para retornar à vida corporal, cumprindo, por meio de uma ação material, os desígnios cuja execução Deus nos confia; permite- nos demonstrar o uso que faremos de nosso livre-arbítrio, por meio de abençoado aprendizado, e estabelecer, para isso, diretrizes adequadas ao engrandecimento de nossos destinos imortais, através dos laços da verdadeira fraternidade.
Em decorrência, os compromissos fixados em nosso programa existencial não são meros acordos superficiais, mas ensejam a possibilidade de podermos realizar, em uma nova existência, o que não foi possível fazer ou concluir, nas provas de vidas anteriores. Daí procede a certeza de que não escaparemos das resoluções infelizes, sem os ajustes necessários para resgatarmos os débitos contraídos no pretérito e que tantas mutilações e conflitos geraram em nossas almas. A esse respeito, afirma Allan Kardec, em nota à questão 171, de O Livro dos Espíritos:
A doutrina da reencarnação [...] é a única que corresponde à idéia que formamos da justiça de Deus para com os homens que se acham em condição moral inferior; a única que pode explicar o futuro e firmar as nossas esperanças, pois que nos oferece os meios de resgatarmos os nossos erros por novas provações. A razão no-la indica e os Espíritos a ensinam.1
Sem dúvida, o Espírito reencarnado pode e deve preocupar-se em planejar a constituição e a organização de sua família terrena: o número de filhos, o período propício para maternidade etc., sem eximir-se, no entanto, dos imperiosos resgates a que está vinculado.No entender do nobre Espírito Joanna de Ângelis,“ os filhos, porém, não são realizações fortuitas [...] Procedem de compromissos aceitos antes da reencarnação pelos futuros progenitores, de modo a edificarem a família de que necessitam para a própria evolução”. 2 E conclui a bondosa Mentora:
A programação da família não pode ser resultado da opinião genérica dos demógrafos assustados, mas fruto do diálogo franco e ponderado dos próprios cônjuges, que assumem a responsabilidade pelas atitudes de que darão conta.
O uso dos anticonceptivos como a implantação no útero de dispositivos anticoncepcionais, mesmo quando considerado legal, higiênico, necessita possuir caráter moral, a fim de se evitarem danos de variada consequência ética.3
As decisões quanto à utilização de recursos anticonceptivos, por parte dos casais espíritas, devem nortear-se pelos padrões morais-cristãos adqui- ridos nos ensinos dos princípios fundamentais da Doutrina, confiantes nas palavras lúcidas e iluminadas dos benfeitores espirituais, que declaram:
Deus concedeu ao homem, sobre todos os seres vivos, um poder de que ele deve usar, sem abusar. Pode, pois, regular a reprodução, de acordo com as necessidades. Não deve opor-se-lhe sem necessidade. A ação inteligente do homem é um contrapeso que Deus dispôs para restabelecer o equilíbrio entre as forças da Natureza e é ainda isso o que o distingue dos animais, porque ele obra com conhecimento de causa. [...]4
Sem esquecer que “tudo o que embaraça a Natureza em sua marcha é contrário à lei geral”.5
As questões do sexo, entretanto, não se reduzem a meros fatores fisiológicos, mas se concentram na alma, em sua sublime edificação. Ao retornarmos ao mundo carnal, mesmo sem condições de viver integralmente em regime de purificação, pelas próprias imperfeições que ainda nos caracterizam, é necessário despender intensos esforços para conquistar qualidades mais elevadas, como a ternura, a humildade, a delicadeza e o amor fraterno, a fim de lograrmos êxito ao obter o necessário equilíbrio em nossas exteriorizações do sentimento.
O preclaro autor espiritual André Luiz, em um de seus livros, relata a experiência vivida, junto com seu Instrutor Calderaro, em centro de estudos “onde elevados mentores ministram conhecimentos a companheiros aplicados ao trabalho de assistência na Crosta”.6 Na ocasião, o mensageiro responsável pela explanação da noite fez os seguintes comentários, entre outros, sobre problemas atinentes ao sexo:
A construção da felicidade real não depende do instinto satisfeito. A permuta de células sexuais entre os seres encarnados, garantindo a continuidade das formas físicas em processo evolucionário, é apenas um aspecto das multiformes permutas de amor. [...] Desenvolvamos, pois, carinhosa assistência aos que se desesperam no mundo [...]. Ensinemo-los a libertar a mente das malhas do instinto, abrindo-lhes caminho aos ideais do amor santificante, recordando-lhes que fixar o pensamento no sexo torturado, com desprezo dos demais departamentos da realização espiritual [...] é estacionar, inutilmente, no trilho evolutivo [...].7
Como reter o fulgor revelador desses conceitos, no momento em que tantas pessoas, motivadas pela excessiva permissividade sexual, ultrajam valores morais de forma inimaginável? Lamentavelmente, em meio a tantos descalabros do sexo, a maternidade aviltada busca o aborto como solução para repelir os filhos indesejados, especialmente entre certos jovens, desnorteando os pais que não os prepararam devidamente para o enfrentamento das consequências de ligações sexuais precoces e irresponsáveis, sem nenhum cuidado com os compromissos morais assumidos de uns para com os outros. De que forma sanar problemas tão graves?
O Espiritismo revela-nos algo fundamental:
Louváveis esforços indubitavelmente se empregam para fazer que a Humanidade progrida [...]. Para isso, deve-se proceder como procedem os médicos: ir à origem do mal. [...] Conhecidas as causas, o remédio se apresentará por si mesmo. [...] Poderá ser longa a cura, porque numerosas são as causas, mas não é impossível. Contudo, ela só se obterá se o mal for atacado em sua raiz, isto é, pela educação, não por essa educação que tende a fazer homens instruídos, mas pela que tende a fazer homens de bem. A educação, convenientemente entendida, constitui a chave do progresso moral. [...]8 (Grifo nosso.)
Essa educação deve fazer parte do programa familiar, a ser ministrada nos lares onde predominem o amor cristão e a fraternidade entre seus membros, unidos pelos laços da parentela: orientar os filhos sobre temas alusivos ao sexo, abordando-se questões de acordo com o nível de compreensão de cada faixa etária, da infância e da adolescência, tendo como referência principal a visão espírita, por considerar o retorno ao corpo de carne conjuntura sublime de aperfeiçoamento dos sentimentos e de aprimoramento das condições intelecto-morais; preparar os jovens para o uso responsável da sexualidade, a partir de comportamentos de equilíbrio emocional e de respeito ao próximo, de modo a evitar, no futuro, arrastamentos no terreno da aventura que interfiram na integridade e na formação do caráter deles; ensinar às novas gerações que o dever é a obrigação moral da criatura para consigo mesma, primeiro, e em seguida, para com os outros, conforme aconselha o Espírito Lázaro, em mensagem recebida, em 1863: “O dever principia, para cada um de vós, exatamente no ponto em que ameaçais a felicidade ou a tranquilidade do vosso próximo; acaba no limite que não desejais ninguém transponha com relação a vós”.9
“Identifiquemos no lar a escola viva da alma”,10 sem esquecer que as gerações novas, conforme prenunciado por Allan Kardec, são Espíritos que reencarnarão com o objetivo de “fundar a era do progresso moral”11 e, mesmo sem ascenderem a classes mais elevadas na escala espírita, estarão em condições de contribuir para melhoria da Terra.
Acolhamos o ensinamento de Jesus sobre a necessidade de nascer de novo (João, 3:7): como pais, favorecendo a vinda desses Espíritos que necessitam povoar o orbe para sua transformação em mundo de regeneração; como espíritas, planificando a existência em prol do esforço a desenvolver pela nossa transformação moral e procurando, na prática constante da caridade, sobretudo no reduto familiar, as condições ideais de vida.
Clara Lila Gonzales de Araújo
Reformador Novembro2009
Referências:
1KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 2. ed. espec. Rio de Janeiro: FEB, 2007. Comentário de Kardec à questão 171.
2FRANCO, Divaldo P. Após a tempestade. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1974. Cap. 10, p. 58-62.
2FRANCO, Divaldo P. Após a tempestade. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1974. Cap. 10, p. 58-62.
3 ______. ______. p. 60.
4KARDEC, Allan. Op. cit., q. 693a.
5______. ______. Q. 693.
6XAVIER, Francisco C. No mundo maior. Pelo Espírito André Luiz. Ed. espec. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Cap. 11, p. 159.
7______. ______. p. 167.
8KARDEC, Allan. Op. cit., comentário de Kardec à questão 917.
9______. O evangelho segundo o espiritismo. 4. ed. espec. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Cap. 17, item 7.
10 XAVIER, Francisco C. Vida e sexo. Pelo Espírito Emmanuel. 26. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 4, p. 26.
11KARDEC, Allan. A gênese. 2. ed. espec. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. 18, item 28.
2 de novembro de 2009
CARTA DE UM MORTO
Pede-me você notícias do cemitério nas comemorações de Finados. E como tenho em mãos a carta de um amigo, hoje na Espiritualidade, endereçada a outro amigo que ainda se encontra na Terra, acerca do assunto, dou-lhe a conhecer, com permissão dele, a missiva que transcrevo, sem qualquer referência a nomes, para deixar-lhe a beleza livre das notas pessoais.
Eis o texto em sua feição pura e simples :
Meu caro, você não pode imaginar o que seja entregar à terra a carcaça hirta. no dia dois de Novembro.
Verdadeira tragédia para o morto inexperiente.
Lembrar-se-á você de que o enterro de meu velho corpo, corroído pela doença, realizou-se ao crepúsculo, quando a necrópole enfeitada parecia uma casa em festa.
Achava-me tristemente instalado no coche fúnebre, montando guarda aos meus restos, refletindo na miserabilidade da vida humana...
Contemplando de longe minha mulher e meus filhos, que choravam discretamente num largo automóvel de aluguei, meditava naquele antigo aponta-mento de Salomão – «vaidade das vaidades, tudo é vaidade» –, quando, à entrada do cemitério, fui desalojado de improviso.
Na multidão irrequieta dos vivos na carne, vinha a massa enorme dos vivos de outra natureza. Eram desencarnados às centenas, que me apalpavam curiosos, entre o sarcasmo e a comiseração.
Alguns me dirigiam indagações indiscretas, enquanto outros me deploravam a sorte.
Com muita dificuldade, segui o ataúde que me transportava o esqueleto imóvel e, em vão, tentei conchegar-me à esposa em lágrimas.
Mal pude ouvir a prece que alguns amigos me consagravam, porque, de repente, a onda tumultuária me arrebatou ao circulo mais íntimo.
Debalde procurei regressar à quadra humilde em que me situaram a sombra do que eu fora no mundo... Os visitantes terrestres daquela mansão, pertencente aos supostos finados, traziam consigo imensa turba de almas sofredoras e revoltadas, perfeitamente jungidas a eles mesmos.
Muitos desses Espíritos, agrilhoados aos nossos companheiros humanos, gritavam ao pé das tumbas, contando os crimes ocultos que os haviam arremessado à vala escura da morte, outros traziam nas mãos documentos acusadores, clamando contra a insânia de parentes ou contra a venalidade de tribunais que lhes haviam alterado as disposições e desejos.
Pais bradavam contra os filhos. Filhos protestavam contra os pais.
Muitas almas, principalmente aquelas cujos despojos se localizam nos túmulos de alto preço, penetravam a intimidade do sepulcro e, de lá, desferiam gemidos e soluços aterradores, buscando inutilmente levantar os próprios ossos, no intuito de proclama aos entes queridos verdades que o tímpano humano detesta ouvir".
Muita gente desencarnada falava acerca de títulos e depósitos financeiros perdidos nos bancos, de terras desaproveitadas, de casas esquecidas, de objetos de valor e obras de arte que lhes haviam escapado às mãos, agora vazias e sequiosas de posse material.
Mulheres desgrenhadas clamavam vingança contra homens cruéis, e homens carrancudos e inquietos vociferavam contra mulheres insensatas e delinqüentes.
Talvez porque ainda trouxesse comigo o cheiro do corpo físico, muitos me tinham por vivo ainda na Terra, capaz de auxiliá-los na solução dos problemas que lhes escaldavam a mente, e despejavam sobre mim alegações e queixas, libelos e testemunhos.
Observei que os médicos, os padres e os juízes são as pessoas mais discutidas e criticadas aqui, em razão dos votos e promessas, socorros e testamentos, nos quais nem sempre corresponderam à expectativa dos trespassados.
Em muitas ocasiões, ouvi de amigos espíritas a afirmação de que há sempre muitos mortos obsidiando os vivos, mas, registrando biografias e narrações, escutando choro e praga, tanto quanto vendo o retrato real de muitos, creio hoje que há mais vivos flagelando os mortos, algemando-os aos desvarios e paixões da carne, pelo menosprezo com que lhes tratam a memória e pela hipocrisia com que lhes visitam as sepulturas.
Tamanhos foram meus obstáculos, que não mais consegui rever os familiares naquelas horas solenes para a minha incerteza de recém-vindo, e, sòmente quando os homens e as mulheres, quase todos protocolares e indiferentes, se retiraram, é que as almas terrivelmente atormentadas e infelizes esvaziaram o recinto, deixando na retaguarda tão sòmente nós outros, os libertos em dificuldade pacífica, e fazendo-me perceber que o tumulto no lar dos mortos era uma simples conseqüência da perturbação reinante no lar dos vivos.
Apaziguado o ambiente, o cemitério pareceu-me um ninho claro e acolhedor, em que me não faltaram braços amigos, respondendo-me às súplicas, e a cidade, em torno, figurou-se-me, então, vasta necrópole, povoada de mausoléus e de cruzes, nos quais os espíritos encarnados e desencarnados vivem o angustioso drama da morte moral, em pavorosos compromissos da sombra.
Como vê, enquanto a Humanidade não se habilitar para o respeito à vida eterna, é muito desagradável embarcar da Terra para o Além, no dia dedicado por ela ao culto dos mortos que lhe são simpáticos e antipáticos.
Peça a Jesus, desse modo, para que você não venha para cá, num dia dois de Novembro. Qualquer outra data pode ser útil e valiosa, desde que se desagarre daí, naturalmente, sem qualquer insulto à Lei. Rogue também ao Senhor que, se possível, possa você viajar ao nosso encontro, num dia nublado e chuvoso, porque, em se tratando de sua paz, quanto mais reduzido o séqüito no enterro será melhor.
E porque o documento não relaciona outros informes, por minha vez termino também aqui, sem qualquer comentário.
Irmão X
Livro Cartas e Crônicas - Espírito Irmão X - Psicografia Francisco C. Xavier.
SAUDADE E ESPERANÇA
Nunca demais referir-se ao imperativo da conformação e da serenidade que se deve manter na terra, em apoio daqueles que te precederam no fenômeno da morte.
Entendemos quanto dói o adeus entre aqueles que as dimensões vibratórias separam entre campos diferentes da vida. Entretanto, se te encontras entre os que lastimam a perda de seres queridos, compadece-te deles, auxiliando-lhes a sustentação com a tua própria fé.
O pensamento é mensagem com endereço. E a tua saudade, quando entretecida de angústia e pranto, é uma projeção de sombra e sofrimento que lhes arremessa em rosto, conturbando-lhes os corações ou obscurecendo-lhes os caminhos.
Sobretudo, não te revoltes contra a Divina Providência como se estivesses provocando a perpetuidade de tua dor. A desencarnação sem complexos de culpa é o melhor que pode acontecer a todos aqueles que partem no rumo de vivências novas na Vida Espiritual.
Esse companheiro deixou o corpo, depois de perigoso acidente circulatório para não ser algemado à paralisia por longos meses, aquele se desvencilhou do envoltório material, no curso de grave enfermidade, forrando-se à provação de contrair perturbações mentais irreversíveis; outro liberou-se da experiência humana, no instante áureo da juventude por haver encerrado o ciclo de resgates determinados, de modo a promover-se nas esferas de elevação; e outros ainda se desvinculam da veste física, ante o alvorecer da existência, na condição de crianças que, por força do próprio passado, nos princípios de causa e efeito, terminam processos de luta reparadora em que se achavam incursos, muitas vezes conduzidos, de um plano para outro, a fim de trocarem um corpo doente por outro mais habilitado à execução das tarefas evolutivas que lhes cabe sustentar.
Diante dos chamados mortos a quem tanto amas, não lhes agraves os problemas com as flechas vibratórias do sofrimento, marcado a fogo de inconformidade ou rebeldia.
Padecendo embora o vazio na própria alma, ilumina a saudade com as preces da esperança e envia-lhes reconforto e encorajamento, amparo e consolação.
Ora pela paz de quantos se te adiantaram na transferência para a Vida Maior e entraga-se a Deus, na certeza de que Deus, em nos criando para o amor uns pelos outros, jamais nos separaria os corações para sempre.
Do livro Amanhece. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.
1 de novembro de 2009
EURÍPEDES BARSANULFO
Dados pessoais:
Nome: Eurípedes Barsanulfo.
Nascimento: 1.º/05/1880, em Sacramento, Minas Gerais
Homem: professor, político e espírita.
Desencarne: 1.º/11/1918 (38 anos), na mesma cidade.
1. INTRODUÇÃO
O jornal O Bora, Semanário Independente de Sacramento, em 17 de novembro de 1918 edita uma nota longa sobre esta personalidade. Diz que "A vida de Eurípedes Barsanulfo é um fato um tanto raro na história da humanidade. Compenetrado dos elevados sentimentos de caridade e amor do próximo, só procurou fazer o bem pelo bem, auxiliando sempre os mais necessitados ... Esse vulto eminente, essa alma toda cheia de bondade, não teve ódio nem rancor de ninguém ... A humildade foi um dos traços predominantes de seu caráter reto, sempre averso aos gozos efêmeros da vida terrena".
2. LIDERANÇA JUVENIL
Era ainda bem moço, porém muito estudioso e com tendências para o ensino, por isso foi incumbido pelo seu mestre-escola de ensinar aos próprios companheiros de aula. Respeitável representante político de sua comunidade, tornou-se secretário da Irmandade de São Vicente de Paula, tendo participado ativamente da fundação do jornal "Gazeta de Sacramento" e do "Liceu Sacramentano". Logo viu-se guindado à posição natural de líder, por sua segura orientação quanto aos verdadeiros valores da vida.
3. CONVERSÃO AO ESPIRITISMO
Através de informações prestadas por um dos seus tios, tomou conhecimento da existência dos fenômenos espíritas e das obras da Codificação Kardequiana. Diante dos fatos voltou totalmente suas atividades para a nova Doutrina, pesquisando por todos os meios e maneiras, até desfazer totalmente suas dúvidas.
Despertado e convicto, converteu-se sem delongas e sem esmorecimentos, começando a sofrer, inclusive no seio familiar, as conseqüências de sua atitude incompreendida. Persistiu lecionando e entre as matérias incluiu o ensino do Espiritismo, provocando reação em muitas pessoas da cidade, sendo procurado pelos pais dos alunos, que chegaram a oferecer-lhe dinheiro para que voltasse atrás quanto à nova matéria e, ante sua recusa, os alunos foram retirados um a um.
4. PERSEGUIÇÕES E MEDIUNIDADE
Sob pressões de toda ordem e impiedosas perseguições, Eurípedes sofreu forte traumatismo, retirando-se para tratamento e recuperação em uma cidade vizinha, época em que nele desabrocharam várias faculdades mediúnicas, em especial a de cura, despertando-o para a vida missionária. Um dos primeiros casos de cura ocorreu justamente com sua própria mãe que, restabelecida, se tornou valiosa assessora em seus trabalhos.
A produção de vários fenômenos fez com que fossem atraídas para Sacramento centenas de pessoas de outras paragens, abrigando-se nos hotéis e pensões, e até mesmo em casas de famílias, pois a todos Barsanulfo atendia e ninguém saía sem algum proveito, no mínimo o lenitivo da fé e a esperança renovada e, quando merecido, o benefício da cura, através de bondosos Benfeitores Espirituais.
5. FUNDAÇÃO DO G. E. ESPERANÇA E CARIDADE
Auxiliava a todos, sem distinção de classe, credo ou cor e, onde se fizesse necessária a sua presença, lá estava ele, houvesse ou não condições materiais. Jamais esmorecia e, humildemente, seguia seu caminho cheio de percalços, porém animado do mais vivo idealismo. Logo sentiu a necessidade de divulgar o Espiritismo, aumentando o número dos seus seguidores. Para isso fundou o "Grupo Espírita Esperança e Caridade", no ano de 1905, tarefa na qual foi apoiado pelos seus irmãos e alguns amigos, passando a desenvolver trabalhos interessantes, tanto no campo doutrinário, como nas atividades de assistência social.
Certa ocasião caiu em transe em meio dos alunos, no decorrer de uma aula. Voltando a si, descreveu a reunião havida em Versailles, França, logo após a I Guerra Mundial, dando os nomes dos participantes e a hora exata da reunião quando foi assinado o célebre tratado.
6. FUNDAÇÃO DO COLÉGIO ALLAN KARDEC
Em 1.º de abril de 1907, fundou o Colégio Allan Kardec, que se tornou verdadeiro marco no campo do ensino. Esse instituto de ensino passou a ser conhecido em todo o Brasil, tendo funcionado ininterruptamente desde a sua inauguração, com a média de 100 a 200 alunos, até o dia 18 de outubro, quando foi obrigado a cerrar suas portas por algum tempo, devido à grande epidemia de gripe espanhola que assolou nosso país.
Seu trabalho ficou tão conhecido que, ao abrirem-se as inscrições para matrículas, as mesmas se encerravam no mesmo dia, tal a procura de alunos, obrigando um colégio da mesma região, dirigido por freiras da Ordem de S. Francisco, a encerrar suas atividades por falta de freqüentadores.
7. DEBATES RELIGIOSOS
Liderado a pulso forte, com diretriz segura, robustecia-se o movimento espírita na região e esse fato incomodava sobremaneira o clero católico, passando este, inicialmente de forma velada e logo após, declaradamente, a desenvolver uma campanha difamatória envolvendo o digno missionário e a doutrina de libertação, que foi galhardamente defendida por Eurípedes, através das colunas do jornal "Alavanca", discorrendo principalmente sobre o tema: "Deus não é Jesus e Jesus não é Deus", com argumentação abalizada e incontestável, determinando fragorosa derrota dos seus opositores que, diante de um gigante que não conhecia esmorecimento na luta, mandaram vir de Campinas, Estado de S. Paulo, o reverendo Feliciano Yague, famoso por suas pregações e conhecimentos, convencidos de que com suas argumentações e convicções infringiriam o golpe derradeiro no Espiritismo.
Foi assim que o referido padre desafiou Eurípedes para uma polêmica em praça pública, aceita e combinada em termos que foi respeitada pelo conhecido apóstolo do bem.
No dia marcado o padre iniciou suas observações, insultando o Espiritismo e os espíritas, "doutrina do demônio e seus adeptos, loucos passíveis das penas eternas", numa demonstração de falso zelo religioso, dando assim testemunho público do ódio, mostrando sua alma repleta de intolerância e de sectarismo.
A multidão que se mantinha respeitosa e confiante na réplica do defensor do Espiritismo, antevia a derrota dos ofensores, pela própria fragilidade dos seus argumentos vazios e inconsistentes.
O missionário sublime, aguardou serenamente sua oportunidade, iniciando sua parte com uma prece sincera, humilde e bela, implorando paz e tranqüilidade para uns e luz para outros, tornando o ambiente propício para inspiração e assistência do plano maior e em seguida iniciou a defesa dos princípios nos quais se alicerçavam seus ensinamentos.
Com delicadeza, com lógica, dando vazão à sua inteligência, descortinou os desvirtuamentos doutrinários apregoados pelo Reverendo, reduzindo-o à insignificância dos seus parcos conhecimentos, corroborado pela manifestação alegre e ruidosa da multidão que desde o princípio confiou naquele que facilmente demonstrava a lógica dos ensinos apregoados pelo Espiritismo.
Ao terminar a famosa polêmica e reconhecendo o estado de alma do Reverendo, Eurípedes aproximou-se dele e abraçou-o fraterna e sinceramente, como sinceros eram seus pensamentos e suas atitudes.
8. DESENCARNE
Barsanulfo seguiu com dedicação as máximas de Jesus Cristo até o último instante de sua vida terrena, por ocasião da pavorosa epidemia de gripe que assolou o mundo em 1918, ceifando vidas, espalhando lágrimas e aflição, redobrando o trabalho do grande missionário, que a previra muito antes de invadir o continente americano, sempre falando na gravidade da situação que ela acarretaria.
Manifestada em nosso continente, veio encontrá-lo à cabeceira de seus enfermos, auxiliando centenas de famílias pobres.
Havia chegado ao término de sua missão terrena.
Esgotado pelo esforço despendido, desencarnou no dia 1.º de novembro de 1918, às 18 horas, rodeado de parentes, amigos e discípulos.
Sacramento em peso, em verdadeira romaria, acompanhou-lhe o corpo material até a sepultura, sentindo que ele ressurgia para uma vida mais elevada e mais
9. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
NOVELINO, CORINA. Eurípedes, o Homem e a Missão. 3.ed., Araras/SP, IDE, 1979.
Grandes Vultos do Espiritismo
31 de outubro de 2009
IMORTALIDADE
Desde a idade remota os homens tinham idéias ou intuições sobre a imortalidade da alma. Povos indígenas tinham o costume de colocarem armas e utensílios no túmulo, numa possível referência a continuação da vida.
Embora a imortalidade da alma tenha sido ensinada através dos tempos por todas as doutrinas espiritualistas, coube ao Espiritismo, não só confirmar esta evidência como através de fatos, comprovar sua realidade.
Assim é que o Espiritismo vem oferecendo desde sua codificação ensejo a todos que desejem certificar-se da imortalidade. O desdobramento da personalidade humana, comprovado através de testemunhos indiscutíveis.
Aparições espontâneas, os desdobramentos conscientes, materializações, fenômenos de incorporação, voz direta, psicografia, psicometria, sonhos e intuições são provas de que a vida futura não é mais um simples artigo de fé, uma hipótese.
A imortalidade da alma é uma das mais importantes revelações para a humanidade, pois através dela, nos asseguramos da realidade do futuro e da certeza de que um dia, através de nossos esforços, atingiremos a perfeição a que todos nós estamos destinados.
Por isto o Cristo iluminado nos disse: “Vós sois deuses” (Jo 10:34) e “nenhuma de minhas ovelhas se perderá” (Jo 18:9).
Quanto a imortalidade de nossa alma, o Cristo foi mais claro ainda quando disse:
“Eu sou a ressurreição e a vida e todo aquele que crê em mim mesmo que morrer viverá, e todo aquele que crê em mim não perecerá”(Jo 11:25).
“Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aqueles que podem fazer perecer no inferno a alma e o corpo” (Mt 10:28).
Portanto, para o verdadeiro cristão, a morte nada tem de apavorante e não é mais a porta do nada, mas a porta da libertação que abre ao homem reformado à entrada de uma nova morada de felicidade e paz.
Se quisermos desfrutar de equilíbrio e paz no plano extra-físico em nossas existências futuras, é indispensável alicerçar nossos atos e ações no amor cósmico e universal ensinado pelo Homem de Nazaré. A edificação do amor em nossos corações é o único roteiro capaz de nos conduzir à perfeição espiritual a que nos destinamos. Não é bastante apenas crer na imortalidade da alma, inadiável é a luta que temos que travar dentro de nós mesmos procurando vencer nossos erros, vícios e defeitos.
A idéia clara e precisa que temos da imortalidade nos dá a fé inabalável para o futuro.
A nossa vida corporal passa a ser apenas uma passagem, uma curta estação neste planeta de provas e expiações! As dores e vicissitudes são passageiras, porque o determinismo de nossa evolução nos dirigirá a um estado de mais felicidade e ventura.
Reformemos o quanto antes nossas vidas, afogando definitivamente o homem velho cheio de erros e defeitos, para que possa ressurgir um homem novo e feliz, harmonizado com o Cristo e com seu evangelho.
“Porque aquele que quiser salvar sua vida, perdê-la-á, e quem perder sua vida por minha causa achá-la-á. Pois, o que aproveita ao homem ganhar o mundo, se perder sua alma?” (Mt 16:25-26).
30 de outubro de 2009
DOIS DE NOVEMBRO
O dia dois de novembro é dia mundialmente dedicado a cultuar os mortos.
O culto aos mortos foi uma das práticas fundamentais de quase todas as religiões, mesmo das mais primitivas, e esteve, inicialmente, ligado aos cultos agrários e aos da fertilidade.
Os defuntos, como as sementes, eram enterrados com vistas a uma futura ressurreição ou nascimento.
Pensava-se que, assim como as sementes, os mortos ficavam no solo esperando uma nova vida.
Os hindus comemoravam os mortos em plena fase da colheita, justamente como a festa principal desse período.
Assim, sondando as primeiras manifestações de culto aos mortos, percebemos que a prática foi se desfigurando ao longo dos tempos.
No princípio, o Dia de Finados era uma verdadeira festa em louvor à imortalidade da alma.
Sem aspecto fúnebre, marcava o fim de uma, e o início de outra etapa para o Espírito, que deixava seu corpo no túmulo para germinar outra vez e renascer.
Sabemos hoje que não é possível ressurgir no corpo já morto.
Assim como ocorre com as sementes, que morrem para libertar a vida pulsante de sua intimidade em forma de plantas, flores e frutos, assim também o corpo morre para libertar o Espírito nele cativo.
Fenômeno semelhante ao que ocorre com a borboleta, que deixa o casulo para surgir ainda mais bela e mais livre, acontece com o Espírito, que deixa o casulo do corpo físico e vibra na imortalidade gloriosa.
Dessa forma, os seres amados com os quais convivemos por mais ou menos tempo, não estão cativos no túmulo, de onde até mesmo o corpo físico já se evadiu para formar, com seus átomos, outras formas de vida.
E para demonstrar-lhes o nosso carinho e gratidão, um único dia no ano é muito pouco, para quem verdadeiramente não os deixou de amar.
É importante que cuidemos, com carinho, do lugar que abriga os despojos carnais dos entes queridos, mas tenhamos mais cuidado em manter acesa a chama do afeto que nos une uns aos outros, embora em planos diferentes da vida.
Não os recordemos somente no Dia de Finados, pois que finados eles não são.
Busquemos, sempre, lembrar os bons momentos que Deus nos permitiu desfrutar juntos do lado de cá, para que, ao adentrarmos o mundo espiritual, possamos abraçá-los com o afeto de quem jamais os esqueceu, embora já tenha passado algum tempo.
Tenhamos em mente que os ditos mortos registram os nossos pensamentos. E lembremos que, tanto quanto nós, eles sentem saudades. Por isso, não deixemos para nos lembrar deles somente uma vez por ano.
* * *
O dia 2 de novembro não é efetivamente o dia dos mortos, mas sim, o dia consagrado à imortalidade da alma.
Portanto, seja o dia 2 de novembro, para nós, o dia em que prestamos homenagem especial aos seres amados que partiram para a pátria espiritual, para onde também seguiremos um dia...
Pensemos nisso!
28 de outubro de 2009
ENQUANTO BRILHAM AS ESTRELAS
A reencarnação é bênção do Senhor aos seus tutelados, como oportunidade sublime para o progresso do Espírito.
Chamados ao serviço de evangelização das massas, quando a Voz portentosa do Mestre conclama ainda: - "Ide e prega!"; beneficiados pelas luzes do Consolador que redime e ampara, os veros discípulos do Cristianismo Redivivo lutam por oferecer-se em holocausto de amor por sua própria redenção e evolução de seus irmãos.
As claridades sempiternas que descem sobre a carne, alentando os homens no carreiro difícil das provas, erguem-no também para as Plagas da Verdade, onde será ouvida a Voz do Alto, ensinando o roteiro dos tesouros imperecíveis para as pátrias do Infinito.
Reencarnação com sofrimentos, lutas, renúncias é sinônimo perfeito de elevação espiritual, fazendo crescer a alma para o nosso Criador e Pai, na conquista dos tesouros imperecíveis.
Convocados às lides evangélico-doutrinárias, os tutelados de Ismael, investidos na Terra de novas obrigações e responsabilidades, desvelam-se por levar avante o programa redentor.
Quantos passaram pelo Santuário de Luz deixaram sua marca mantida para sempre nos arquivos espirituais.
Quantos doaram de si mesmos no cumprimento de deveres santos e não desprezaram a oportunidade sagrada permanecem em atividade no Plano Maior, na tarefa de assistência fraterna de orientação e amparo invulgar aos colaboradores que ficaram.
Alijados da carne densa, justapõem-se ao Grupo, irmanados no elevado ideal da Casa - "Deus, Cristo, Caridade" -, cujo significado envolto em eternos resplendores, um dia, será conhecido da Humanidade.
Enquanto brilham as estrelas à Luz divina, em benefício dos que se consagram ao labor de levantar no orbe terrestre o estandarte da redenção, mister se torna que aqueles que se integraram nas fileiras mais altas conservem em seus corações a fé e a confiança plena nos destinos desta Casa, desta Pátria, desta Terra, deste Orbe.
Convida-os o Senhor, num toque de amor suave e luminoso, ao congraçamento fraterno.
Brilham as estrelas na Casa de Ismael, iluminando o Brasil com a luz do Cristo de Deus.
Brilham os tarefeiros da Alta Cúpula, irradiando coragem, paz e amor.
Brilhará para sempre, em eternos resplendores, o lema: "Deus, Cristo, Caridade".
Assim compreendendo, façamos brilhar a nossa luz na consagração do divino serviço.
Aksakof
(Mensagem recebida no “Grupo Ismael”, na Federação Espírita Brasileira, no Rio de Janeiro-RJ, na noite de 3 de agosto de 1978.)
26 de outubro de 2009
MARIA DE MAGDALA
“Um dos fariseus convidou-o para jantar com ele. E entrando na casa do fariseu, tomou lugar à mesa. Havia na cidade uma mulher que era pecadora, e esta, sabendo que ele estava jantando na casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume e, pondo-se-lhe aos pés, chorando, começou a regá-los com lágrimas, e os enxugava com os cabelos da sua cabeça, e beijava-lhe os pés e ungia-os com perfume. Ao ver isto, o fariseu que o convidara, dizia consigo: se este homem fosse profeta; saberia quem é que o toca e que sorte de mulher é, pois é uma pecadora.
Então Jesus disse ao fariseu: Simão, tenho uma coisa para te dizer. Ele respondeu:
Dize-a, Mestre. Certo credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentos denários, e o outro cinqüenta. Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou a dívida a ambos. Qual deles, portanto, o amará mais? Respondeu Simão: suponho que aquele a quem mais perdoou. Replicou-lhe: Julgaste bem. E virando-se para a mulher, disse a Simão: vês esta mulher? Entrei na tua casa e não me deste água para os pés, mas estamos regou com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo; ela porém, desde que entrou, não cessou de beijar-me os pés. Não ungiste a minha cabeça com óleo, mas esta com perfume ungiu os meus pés. Por isso te digo:
Perdoados lhe são os seus pecados, que são muitos, porque ela muito amou. Mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama. E disse à mulher: perdoados são os teus pecados. Os que estavam com ele à mesa começaram a dizer consigo mesmos: Quem é este que até perdoa pecados? Mas Jesus disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz.”
(Lucas, VII, 36-50.)
“Ora, estando Jesus em Betânia, na casa de Simão, o leproso, chegou-se a ele uma mulher que trazia um vaso de alabastro com precioso perfume, e lho derramou sobre a cabeça, quando ele estava à mesa. Vendo isto, os seus discípulos indignaramse e disseram: Para que este desperdício? Pois o perfume podia ser vendido por muito dinheiro e ser este dado aos pobres. Mas Jesus percebendo isto, disse-lhes: Por que molestais esta mulher? Pois ela me fez uma boa obra. Porquanto os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes; porque derramando ela este perfume sobre o meu corpo, fê-lo para a minha sepultura. Em verdade vos digo que onde quer que for pregado em todo, o mundo este Evangelho, será também contado para memória sua, o que ela fez.”
(Mateus, XXVI, 6-13.)
“Quando iam de caminho, entrou ele em uma aldeia; e uma mulher chamada Marta hospedou-o. Esta tinha uma irmã chamada Maria, a qual, sentada aos pés de Jesus, ouvia o seu ensino. Marta, porém, andava preocupada com muito serviço; e chegando-se disse: Senhor, a ti não se te dá que minha irmã me tenha deixado só a servir? Dize-lhe, pois, que me ajude. Mas respondeu-lhe o Senhor: Marta, Marta, estás ansiosa e te ocupas com muitas coisas; entretanto poucas são necessárias, ou antes uma só; porque Maria escolheu a boa parte que não lhe será tirada.”
(Lucas, X, 38-42.)
“Logo depois andava Jesus pelas cidades e aldeias, pregando e anunciando as boas novas do Reino de Deus, e iam com ele os doze e algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades; Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios, Joana, mulher de Cusa, procurador de Herodes, Suzana e muitas outras, as quais o serviam com os seus bens.”
(Lucas, VIII, 1-3.)
“Era o dia da Parasceve(01), e ia começar o sábado. E as mulheres que tinham vindo da Galiléia com ele, seguindo a José, viram o túmulo e como o corpo de Jesus fora posto nele; voltando depois, prepararam aromas e bálsamos.”
(Lucas, XXIII, 54-56.)
“Maria, porém, estava junto à entrada do túmulo, chorando. E enquanto chorava, abaixou-se e olhou para dentro do túmulo, e viu dois anjos com vestes brancas, sentados onde o corpo de Jesus fora posto, um à cabeceira, outro aos pés.
Eles lhe perguntaram: Mulher, por que choras? Respondeu ela: Porque tiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. Tendo dito isto, virou-se para trás e viu a Jesus em pé, mas sem saber que era ele. Perguntou-lhe Jesus: Mulher por que choras? A quem procuras? Ela supondo ser o jardineiro, respondeu: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela virando-se disse-lhe:
Eles lhe perguntaram: Mulher, por que choras? Respondeu ela: Porque tiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. Tendo dito isto, virou-se para trás e viu a Jesus em pé, mas sem saber que era ele. Perguntou-lhe Jesus: Mulher por que choras? A quem procuras? Ela supondo ser o jardineiro, respondeu: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela virando-se disse-lhe:
Mestre! Disse-lhe Jesus: Não me toques; porque ainda não subi a meu Pai, mas vai a meus irmãos e dize-lhes que subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus. Maria Madalena foi contar aos discípulos: Vi o Senhor, e ele disse-me estas coisas!”
(João, XX, 11-18.)
Maria Madalena é a mulher de quem Jesus expeliu sete espíritos maus. Cheia de gratidão pela graça que obtivera, vai à casa de Simão, sabendo que Jesus lá estava; sem se preocupar com a dignidade do fariseu, sem temer escândalos nem preconceitos, lança-se aos pés do Divino Mestre e lhe oferece tudo o que tem: perfume, lágrimas, coração e espírito! A extraordinária mulher não abandona mais o seu Salvador: segue-o por toda parte acompanhada daquele préstito de mulheres que, como ela, haviam recebido graças e espalhavam sobre os passos do extraordinário Messias o eterno perfume das suas esperanças.
Lição profunda que precisa tornar-se conhecida para proveito de todos.
Não é só pela inteligência que o homem se eleva a Deus, mas também pelo coração, pelo sentimento.
O sentimento é a alma da virtude, é o motor das grandes ações.
É o sentimento que transforma e modela a alma; é ainda o sentimento que exprime todos os afetos puros, todas as gratidões imorredouras.
Tanto na mulher como no homem, o sentimento é a corda vibrátil das grandes emoções.
Platão, impulsionado pela palavra de Sócrates, põe de lado tudo o que é do mundo e com seu Mestre vai cultivar a Beleza e a Bondade, que sintetizam a sabedoria universal.
Madalena, arrebatada pelo amor de Jesus, renuncia aos gozos da Terra e segue os passos do Galileu Humilde, em sua alta missão de regeneração e redenção.
A palavra do Moço da Galiléia, repassada de doçura, cheia de mansidão, a arrebata, e, com ele, inicia sua tarefa de caridade e de amor!
A Doutrina Judaica, cheia de preconceito para com as mulheres, foi esmagada pelo brado do amor divino, pelo Verbo poderoso de Deus!
Libertador da mulher, o Cristo outorgou-lhe a missão de amar e profetizar; revestiu-a das faculdades preciosas do Espírito para a realização do divino desiderato de unir ambos os mundos, ambas as Humanidades: a Humanidade que se arrasta na Terra, e a Humanidade que flutua nos Céus!
A história de Maria de Magdala é a história da reabilitação da mulher; para o cumprimento de seus deveres cristãos, Jesus não faz seleção de sexo em seus trabalhos missionários. Ao contrário, acerca-se das mulheres, que, mesmo sem que Ele falasse, pressentiam, naquela eminente Figura, o Messias prometido.
A intuição lhes dizia, no fundo dai ma, que elas estavam diante do Filho de Deus.
Não era preciso que Jesus lhes demonstrasse sua Individualidade, que fizesse milagres e prodígios para que cressem: elas adivinhavam. E é sem dúvida por esse motivo que o Mestre, na folga de seus trabalhos missionários, tinha prazer em descansar ria Aldeia de Betânia, onde, com especialidade, se hospedava em casa de Marta, Maria e Lázaro. Era ali que ele se abria em suas consolações mais doces e que, em amenas palestras, falava da Vida de além-túmulo, cujos ensinos não ousava ainda confiar a seus discípulos.
Nos tempos primitivos havia um grande desprezo pela mulher.
A mulher era um ser secundário, sem primazia intelectual, entretanto, não podiam deixar de reconhecer na mulher um instrumento suscetível às manifestações psíquicas.
Quer da manifestação dos fenômenos de animismo, quer dos fenômenos propriamente espíritas, o sexo feminino sobrepuja o chamado sexo forte; é mais passível, mais dócil, mais dotado de sensibilidade, e, pois, de mediunidade.
Segundo afirmam diversos observadores, dentre estes Pitrés, um terço das mulheres é dotado de mediunidade, ao passo que no sexo masculino só um quinto de homens possui essa faculdade.(02)
Em 360 pessoas magnetizadas por Bertillon, 265 eram mulheres, 50 homens, e 45 meninos. De um estudo feito em 17.000 indivíduos, a mulher representa percentagem medi única de 12 por cento, ao passo que o homem não excede a 7 por cento, quase a metade. Que quer dizer esta estatística, se não que as mulheres são mais suscetíveis às coisas divinas que os homens? Os sacerdotes das antigas religiões, que eram profundos no estudo da alma, compreendiam muito bem o poder da mulher como intermediária entre o mundo visível e o invisível. E tanto isso é verdade que a mulher era escolhida para todos os fins de mediunidade.
O Oráculo de Delfos, tão famoso na História, era dirigido por sacerdotes, por homens, mas o exercício do mediunismo estava afeto às mulheres.
Entre os judeus, segundo refere o Velho Testamento, as mulheres mantinham relações com os Espíritos. Maria, irmã de Moisés, era profetisa, assim como Débora e Holda. No Endor o Espírito de Samuel é evocado por uma mulher. Vemos em o Novo Testamento que a profecia era exercida por mulheres, de preferência a homens.
O Apóstolo Paulo chega a desligar e a adormecer a medi unidade de uma moça, que disso tirava proventos para seus senhores.
Na Galiléia e na Betânia, as mulheres mereciam mais confiança para a profecia do que os homens.
Por fim, os sacerdotes deliberaram destituir a mulher, privando-a das suas funções proféticas. É possível que daí se originasse o vestuário e a raspagem do rosto dos padres.
O grande criminalista, Cesar Lombroso, dedica um capítulo do seu livro Espiritismo e Hipnotismo a este fato, em verdade digno de exame.
Por que o padre usa batina? Por que o padre não usa barba e bigode?
Mas não entremos nessas indagações; continuemos com nosso tema, que é a libertação da mulher das peias materiais.
Maria, de Betânia, é uma figura saliente no Evangelho; seu amor acendrado por Jesus faz dela a verdadeira mulher espiritual. Muitos escritores sacros exaltam o nome de Maria Madalena, e a própria Igreja chegou a santificá-la. São Modesto, grande prelado, diz que Madalena era a cabeça e diretora das pessoas de seu sexo, que iam após Jesus Cristo. No começo do século VIII, as Igrejas do Oriente e do Ocidente estabeleceram o culto a Madalena, Os religiosos gregos tributavam-lhe culto e a consideravam igual aos Apóstolos.
De fato, a simpática figura, a quem dedicamos uma página do nosso livro, é digna da mais expressiva consideração e do mais acrisolado amor.
Se estudarmos a vida de Maria Madalena, veremos a extrema dedicação que ela votava a Jesus. O amor gentílico foi substituído, naquela criatura, pelo amor divino, e, por toda parte, ela segue, com rara abnegação, o seu Salvador!
Em todos os passos dolorosos da Vida do Redentor, aparece Maria como o símbolo, a personificação da mulher espírita.
Arrastado ao Calvário, Maria acompanha a Jesus: pregado este na cruz infamante, ela não o abandona: ajoelhada; de cabelos em desalinho, participa da agonia!
Jesus expira, lançam seu corpo num sepulcro; ela afasta-se, porque, a isso é constrangida por soldados pretorianos; mas não se contém; enquanto uns fogem atemorizados e outros se escondem e temem, ela, a mulher extraordinária, não pensa em si mesma, não cogita dos males que lhe poderiam advir, mas prepara bálsamos perfumados e volta ao sepulcro para dar o seu testemunho de amor sincero àquele que lhe dera a vida da alma, deixando ver que, nem mesmo a morte tem poder para extinguir do seu espírito os sinceros afetos que devota a seu Mestre!
E foi então que, caminhando de um lado para outro, no paroxismo de sua dor, Maria é mais uma vez agraciada com a visão do seu Senhor, que, em voz maviosa chama-a pelo seu próprio nome: “Maria!”
Louca de júbilo, precipita-se aos pés de Jesus Espírito, e ele pede-lhe evitar o contato, porque não havia ainda dado conta ao Pai celestial da sua tarefa. Logo após, estando ela com outras santas mulheres, Jesus lhes aparece e dá-lhes a recomendação:
“Ide e dizei a meus irmãos que partam para a Galiléia, porque será lá que eles me verão.”
E na mesma tarde a mensagem tem o seu cumprimento: “Estando os onze reunidos, com as portas fechadas, viram Jesus entrar. Ele tomou o seu lugar entre eles, falou-lhes com doçura, increpando-os pela sua incredulidade, depois lhes disse:
“Ide para Jerusalém, e não vos retireis de lá até que se cumpram os dias em que haveis de receber o Espírito, para depois sairdes por toda parte a pregar o Evangelho.”
Enfim, Madalena é o espelho no qual as mulheres cristãs devem mirar-se para serem felizes não só nesta vida como também na outra.
O Espiritismo, salientando o papel que Madalena desempenhou no Cristianismo, vem concorrer para a libertação da mulher do fardo do mundo e do jugo das religiões sacerdotais. Vem garantir-lhe o direito do estudo, do livre-exame e até do apostolado.
É no trabalho espírita, porque não lhe faltam dons, que a mulher pode progredir com maior facilidade; é pelo estudo e pela instrução que ela se libertará do preconceito e das modas nefastas que a deprimem, tornando-a fator da concupiscência e da sensualidade.
O mundo se transforma; a mulher precisa renovar-se no Espírito do Cristo!
O mundo se transforma; a mulher precisa renovar-se no Espírito do Cristo!
Dotada de sensibilidade e receptividade para as revelações do Além, ela deve tornar-se dócil, estudar, instruir-se, para libertar-se do jugo da Igreja, e, consciente de seus deveres e de seus dons, auxiliar a obra de espiritualização, sob o influxo do Espírito da Verdade, encarregado de realizar, na Terra, o Reino de Deus.
01 Paracesve: a sexta-feira, entre os judeus, dia em que eles se preparavam para celebrar o sábado. Na Liturgia Católica é a sexta-feira santa.
02 Não obstante, cumpre observar que a mediunidade existe em estado latente na Quase totalidade das criaturas humanas, de ambos os sexos.
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